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O GÉNERO LASIODISCUS (RHAMNACEAE) EM SÃO TOMÉ

Estrela Figueiredo

Centro de Botanica, Trav. Conde da Ribeira 9, 1300 Lisboa, Portugal

O género Lasiodiscus (Rhamnaceae) está representado em São Tomé por duas espécies raras, de grande interesse.

De L. rozeirae Exell, que é endémico na ilha, só se conhecem dois exemplares de herbário colhidos por Rozeira no obô D. Eugénia em D. Augusta, em 1953. A espécie não voltou a ser colhida e é possível que se encontre extinta.

A outra espécie, Lasiodiscus mildbraedii Engl., não é endémica em São Tomé, todavia apresenta uma distribuição curiosa: encontra-se a 1000 - 1400 m de altitude no Sudão, Zaire, Uganda e Tanzânia, enquanto em São Tomé ocorre abaixo dos 200 m. Além disso, as populações de L. mildbraedii em São Tomé estão extremamente distanciadas das populações mais próximas no continente (Zaire oriental), existindo apenas uma colheita intermédia nos Camarões.

Lasiodiscus mildbraedii at Morro Peixe 1993

Em São Tomé, Lasiodiscus mildbraedii é um arbusto ou pequena árvore, facilmente reconhecível pelas folhas opostas com estípulas unidas apenas num dos lados do raminho, pequenas flores brancas que quando fechadas em botão são reconhecíveis pelos pêlos castanhos no ápice, ou quando abertas mostram 5 estames alternos com as sépalas e opostos às pétalas, exteriores a um disco carnudo. A espécie floresce em Outubro - Novembro.

L. mildbraedii foi colhido nas seguintes localidades: Ponta Cadão, entre Ribeira Funda e praia das Conchas, Morro Peixe, entre Morro Peixe e Guadalupe, e no Morro Muquinqui. A colheita da Ponta Cadão data de 1888 e a da Ribeira Funda - Praia das Conchas data de 1972. É possível que estas populações já estejam extintas, sendo necessária a confirmação no campo. Em 1993 foi comprovada a existência de alguns indivíduos de L. mildbraedii em Morro Peixe e Morro Muquinqui. Nestes locais encontram-se pequenas áreas de floresta que é importante conservar, uma vez que contêm testemunhos de uma flora de baixa altitude, que devido à colonização da ilha se extinguiu na quase totalidade.

O facto de L. mildbraedii não se encontrar em áreas próximas no continente, aparecendo apenas a grande distância, a uma maior altitude, aparentemente indica que num passado distante esta espécie tinha uma distribuição contínua em África mas, provavelmente devido a factores ambientais, extinguiu-se nas florestas de baixa altitude do continente, sobrevivendo apenas nas de São Tomé, mais protegidas de alterações climáticas pela influência de oceano.

Os poucos indivíduos de L. mildbraedii que foram observados em Morro Peixe e Morro Muquinqui são relíquias de uma flora antiga e evidenciam a importância da flora de São Tomé no contexto da história da vegetação africana. Protegendo estas plantas e o seu habitat, contribui-se para a salvaguarda do património natural de São Tomé e conserva-se um testemunho importante da história natural da ilha.

© 1999, Estrela Figueiredo.

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