GULF OF GUINEA ISLANDS' BIODIVERSITY
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ARTHUR W. EXELL NAS ILHAS DO GOLFO DA GUINÉ
Estrela Figueiredo
Centro de Botanica, Trav. Conde da Ribeira 9, 1300 Lisboa, Portugal
A 20 de Outubro de 1932, Arthur Exell desembarcou em São Tomé para iniciar uma expedição botânica nas ilhas do Golfo da Guiné. Após vários anos de estudo de espécimes africanos no herbário do British Museum (Natural History), Exell, à data com 31 anos de idade, tomava deste modo contacto com a flora tropical. Nos quatro meses que se seguiram, Exell visitou as quatro ilhas e realizou numerosas colheitas, tendo sido, aparentemente, o único botânico a fazer colheitas na totalidade das ilhas do Golfo da Guiné. Os resultados desta expedição foram publicados em 1944, no Catalogue of the Vascular Plants of S.Tomé e incluiram a descrição de 17 espécies novas e o registo de novas ocorrências de vários taxa previamente pouco conhecidos.
A. W. Exell em 1991 |
Em São Tomé, Exell e o entomólogo W. H. T. Tams ficaram alojados em Vanhulst (Macambrará), então uma dependência da roça Zampalma, que lhes serviu de base para várias excursões frutuosas. Duas visitas à Lagoa Amélia (que Exell considerava um local espantoso) resultaram em numerosas colheitas interessantes e na descoberta de Begonia crateris. Contudo, a expedição não decorreu sem incidentes. Após uma excursão ao Pico, a que ascenderam pelo dificil caminho a oeste da Lagoa Amélia, seguindo pela crista na direcção do Calvário, Exell e Tams viram-se perdidos na floresta durante longas horas, como se pode ler no relato que se encontra nos apontamentos de colheita de Exell: |
11 de Novembro
Saímos de manhã com o Cabo, Lafalino e Micoto e montámos a tenda pequena no topo do Calvário, sob uma tempestade de chuva. Vestimos as roupas secas que tinhamos trazido e passámos uma noite relativamente confortável.
12 de Novembro
Voltámos a vestir as roupas molhadas, tomámos o pequeno-almoço e partimos cerca das 6:30 para o Pico. Seguimos a crista estreita ao longo das Escadas, um local muito perigoso (os rapazes recusaram-se a acompanhar-nos) onde escorregar poderia ser fatal. Atingimos a Estação Sousa cerca das 8:00 e o Pico às 9:30, debaixo de uma tempestade de chuva. Encontrei Podocarpus mannii um pouco abaixo do cume, e Philippia thomensis. O cume do Pico encontra-se plantado com quinino. Voltámos para a Estação Sousa cerca das 11:00 e depois perdemo-nos num pedaço de floresta medonho, com um labirinto de caminhos, a sul de Sousa. Após uma subida terrível voltámos a encontrar o trilho, quase a meio caminho para o Pico e mais uma vez alcançámos Sousa. Nova tentativa: perdemos outra vez o trilho e o caminho para Sousa, só voltando a encontrá-los antes de anoitecer (claro que toda esta região estava inteiramente desabitada). Passámos uma noite terrível - molhados e com frio.
13 de Novembro
24 horas sem comida ou água. Partimos mais uma vez pelo trilho mas novamente sem sorte. Ao tentar encontrar a nossa crista com a bússola perdemos muito tempo e energia, seguindo ao longo de várias cristas subsidiárias com a mesma direcção. Por fim encontrámos a crista e o nosso trilho. Passei a noite na tenda no Calvário e Tams, que parecia sofrer mais com a falta de alimento, seguiu directo para Vanhulst.
14 de Novembro
Regressei do Calvário para Vanhulst e comi qualquer coisa!
Concluidas as colheitas em São Tomé, Exell deslocou-se para Príncipe onde colheu em Oquê Pipi, Terreiro Velho, Infante D. Henrique, Esperança, Sundi, Morro do Leste e Pico Papagaio. Seguiu-se a visita a Bioco e finalmente uma pequena estadia na ilha de Annobon que concluiu a expedição.
Apesar de não ter voltado a fazer colheitas no Golfo da Guiné, Exell continuou extremamente interessado na flora das ilhas ao longo da sua carreira. Mais tarde, veio a publicar vários suplementos ao Catálogo e, finalmente, em 1973, produziu a checklist Angiosperms of the islands of the Gulf of Guinea, obra que ainda se revela bastante útil em estudos florísticos.
Na sequência de uma visita ao herbário de Coimbra, em Portugal, onde estudou materiais de São Tomé e Príncipe, em 1932, Exell foi convidado por L. Carrisso a integrar o projecto Conspectus Florae Angolensis, que viria a desenvolver em colaboração com F. A. Mendonça. Esta colaboração possibilitou o seu regresso a África, na 2ª Missão Botânica a Angola, em 1937. Foi durante essa viagem, na travessia de navio, que Exell viu pela última vez a ilha de São Tomé.
Após o final da 2ª Guerra Mundial, Exell retomou o seu trabalho no Conspectus e desenvolveu árduos esforços para tornar possível a a produção de uma nova Flora africana, a Flora Zambesiaca, na qual viria a trabalhar até 1973.
Aos 91 anos, pouco antes do seu falecimento, Exell, que era detentor de uma memória extraordinária, ainda recordava vivamente a expedição às ilhas do Golfo da Guiné, há 60 anos atrás, e falava com entusiasmo da flora de São Tomé e Príncipe.
© 1999, Estrela Figueiredo.